Em Atos 27–28, Paulo viaja para Roma para ser julgado. Um centurião romano chamado Júlio recebe a responsabilidade de transportá-lo até lá.
Júlio é pagão, e não sabemos se ele alguma vez acreditou em Jesus para a vida eterna. Mas Lucas fica impressionado com este centurião e fala dele em termos entusiasmados. O fato de ele mencionar seu nome e descrever suas ações gentis para com Paulo sugere que ele poderia ter se tornado um crente.
A doutrina calvinista da depravação total sustenta que um incrédulo não pode responder à verdade espiritual, uma vez que está espiritualmente morto. Júlio deveria, no mínimo, fazer com que alguém questionasse esse ponto de vista. Júlio parece responder ao que vê e ouve em Paulo.
Em Atos 27:3, Júlio trata Paulo com uma gentileza incomum (Marshall, Atos, 404). Lucas não explica por que Júlio tratou Paulo dessa maneira. É possível que Júlio conhecesse o cristianismo. Ele conhecia Cesaréia, a cidade onde Cornélio e sua família aceitaram a fé (Atos 10). Com um número relativamente pequeno de centuriões na região, é inteiramente possível que Júlio tivesse ouvido falar da fé do seu colega centurião.
Júlio também mostra bondade para com Paulo na viagem a Roma. Normalmente, os prisioneiros seriam mantidos sob o convés durante uma viagem. Lucas, porém, retrata Paulo no convés. Ele pode conversar com outras pessoas, encorajá-las e até comer com elas. Se assim for, esta é outra indicação da atitude favorável de Júlio para com Paulo (Rapske, Atos, 270), embora Paulo fosse seu prisioneiro.
É claro que, à medida que a viagem continua, Júlio vê Deus agindo em Paulo. Em Atos 27:22-26, Paulo faz uma predição, alegando que um anjo do Senhor lhe disse o que iria acontecer. Do ponto de vista humano, a previsão tem uma chance muito pequena de se concretizar, e os marinheiros a bordo do navio não acreditam que isso aconteça (27:30). Júlio esteve envolvido em tudo o que aconteceu durante sua jornada com Paulo e viu em primeira mão Paulo falando a verdade milagrosamente. Júlio aprendeu a confiar mais nas instruções de Paulo do que nas dos marinheiros experientes, embora Paulo não tivesse experiência em navegação (27:43). Bock diz que Júlio evidentemente passou a acreditar que devia sua vida ao Deus que Paulo servia (Bock, Atos, 728, 741).
Após o naufrágio, a bondade de Júlio para com Paulo continua. Em Atos 27, Paulo é um prisioneiro. Mas depois do naufrágio, as pessoas da ilha onde o navio encalhou não encaram Paulo como um prisioneiro. Como Júlio é o oficial militar de alta patente presente, esta mudança no status percebido de Paulo é resultado da atitude de Júlio em relação a ele (Conzelmann, Atos, 223).
Júlio saberia dos milagres que Paulo realizou na ilha (por exemplo, 28:7-9). Quando o grupo chega a Puteoli, Júlio permite que Paulo, mesmo sendo prisioneiro, fique com amigos por sete dias (Atos 28:14). Parece que a bondade que Júlio demonstra a Paulo é o resultado do caráter, da liderança de Paulo e da evidência que Júlio viu do divino operando nele.
Alguém poderia argumentar que Júlio, assim como seu colega centurião Cornélio, tornou-se um crente em Jesus Cristo. Mesmo que não o fizesse, certamente estava aberto à verdade. Lucas não o via como um cadáver que não respondia a nenhuma luz que lhe fosse dada por Deus. Júlio fornece um forte argumento contra a doutrina da depravação total.

